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sábado, abril 24, 2004

O colega bloquista


Como os amigos de Direito interromperam os seus encontros semanais, devido a um fantástico torneio de sueca em que se inscreveram, não tenho conseguido dar-lhes voz através das minhas palavras. Ironias à parte, a ausência dos imberbes obrigou-me a encontrar os surrealistas caminhos da minha imaginação. Mas não foi fácil de encontrar substituto à altura. Os candidatos eram muitos e a minha paciência para ouvi-los limitada.
Lá encontrei o Francisco, um jovem bloquista conhecido. Chamei-o; ele parecia não me ouvir. Ganhei coragem e gritei-lhe. O rapaz virou-se bruscamente, numa tentativa frustrada de esconder o fumo que escorria furiosamente por entre os seus dedos. Parecia haxixe. Não me importei. Precisava de encontrar alguém que me mostrasse que também consigo sorrir. O Francisco aproximava-se de mim a passos largos. Apertei-lhe a mão. Reparei que ele tinha as cassiopeias no olhar:

- Julguei que tinhas deixado... - perguntei-lhe pouco espantado.
- Ora, isso são lá modos de cumprimentar um amigo.
- Desculpa-me...Vamos dar uma volta por aí? Conversar um pouco.
- Sim. Vamos a minha casa, Lisboa de noite amedronta-me - respondeu-me o rapaz.

À medida que caminhávamos, eu comecei a redescobrir as razões pelas quais eu me tinha apartado da companhia do Francisco e dos seus amigos por tanto tempo. A verdade é que eu procurei o rapaz para me rir durante uns momentos. No entanto, já não me lembrava que os meus sorrisos apenas serviam para esconder a misericórdia que tinha para com ele. O jovem demente fez questão de lembrar-me :

- Não sei por que lês livros...Qualquer dia esqueces tudo - disse-me -, tenho a certeza.

Não consegui responder. A estupefacção explodiu em mim. Senti-me incapaz de quebrar aquele pequeno mundo do rapaz. Não podia fazer isso. Seria demasiada crueldade da minha parte. Contudo, o rapaz estava disposto a deixar-me furioso.

- Olha, vou dizer-te uma coisa: a minha namorada deve estar grávida. Um tipo não usa preservativo duas vezes e acontece disto! - e acrescentou - Talvez tenha de a levar a Espanha.

Quando já avistávamos a casa do rapaz, lembrei-me de todas aquelas conversas sobre o aborto, a Guerra do Iraque e a legalização das drogas que tiveramos um dia. Apressei-me a inventar uma desculpa e despedi-me do rapaz.


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