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segunda-feira, março 29, 2004

INTIMIDADE



Londres. Anos 90. Claire (Kerry Fox) encontra-se com Jay (Mark Rylance) na cave do apartamento deste, todas as quartas-feiras, para o sexo. Só para o sexo. Nunca se falam. Despem-se depressa, passam alguns minutos em que a respiração ofegante marca a cadência dos corpos nus em atrito, vestem-se depressa, e ela sai em direcção ao desconhecido.



Assim começa “Intimidade”, de Patrice Chéreau, que venceu o Urso de Ouro em Berlim 2001 — festival que também premiou Kerry Fox como melhor actriz. O realizador diz que este é um filme “tipicamente francês” apesar de filmado em Inglaterra. Mas, diz Chéreau, “o cinema inglês tem uma atenção à realidade social uma brutalidade e às vezes, uma ausência de qualquer consideração em relação ao que se chama bom gosto. É esse segredo que eu lhe quero roubar para misturar com aquilo que poderia não ser mais do que uma abstracção à francesa.”



“Intimidade” adapta um conto de Kureishi, que já escrevera argumentos para cinema (“A Minha Bela Lavandaria”, de Stephen Frears). Escritor e realizador encontraram-se muittas vezes durante o processo de criação do argumento. Diz Kureishi, numa crónica no "Guardian”: “Falámos sobre corpos, morte decadência; sobre como tantos artistas estão interessados no corpo e nas suas necessidades: o corpo, mais do que a consciência ou as ideias; o corpo em si, no seu relativo isolamento. Parece que habitamos uma cultura de repulsa e choque, em que os humanos estão reduzidos ao zero e os objectivos da cultura se tornaram insignificantes.”



Mas Kureishi coloca o dedo na ferida quando se questiona sobre “para que serve tudo isto” — o sexo à quarta-feira entre um homem divorciado, que queria ser músico e afinal trabalha num bar da moda, e uma mulher casada, com um filho, que queria ser actriz e afinal representa teatro amador num “pub” londrino. “Por que não se falam, em vez de se tocarem? Porquê este pavor da comunicação? Se falarem com alguém, o que poderá acontecer? Se não, que outras possibilidades existem? Até que ponto as pessoas estão disponíveis? O que lhes devemos — ou eles a nós?”



Quando do Festival de Berlim, o filme causou polémica pelas ousadas cenas de sexo explícito. Os actores — corajosos, determinados, imensamente convincentes — envolvem as personagens numa teia complexa em que há algo para além do sexo. “Aqui o sexo não é algo que faz parar a acção. Aqui o sexo é a própria acção”, disse Chéreau, em entrevista ao PÚBLICO (22/06/2001).



Desespero, angústia, necessidade — nesse sexo partilhado não há palavras porque eles mal se conhecem. Mas há um momento em que terão de parar para conversar: é aí que começa o amor.




Raquel Ribeiro

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